O ambientalista que convence o capital

Revista Exame, 22 de Agosto de 2006

Por Cintia Rosenburg

Quando Peter Seligmann fala, empresas como a Wal-Mart escutam — e agem. Entenda por quê  

Todos os anos, o americano Peter Seligmann, principal executivo da Conservação Internacional (CI), uma das maiores ONGs ambientalistas do mundo, passa uma temporada no Pantanal mato-grossense. Na fazenda Rio Negro –que fica a 250 quilômetros de Campo Grande e foi comprada pela CI para o desenvolvimento de pesquisas científicas e experiências de ecoturismo –, ele pratica um de seus hobbies preferidos: a pescaria. Seligmann costuma pescar com alguns dos homens de negócios mais poderosos do planeta. Gordon Moore, o fundador da Intel, e Alain Belda, o presidente mundial da Alcoa, são alguns dos que já o acompanharam. O fundador da CI os coloca num barco, sai em busca de dourados e aproveita para iniciar longas conversas sobre meio ambiente, biodiversidade, economia e negócios. Na fazenda, Seligmann já costurou alianças que renderam milhões em doações para a CI e arquitetou projetos com o potencial de transformar regiões inteiras. “É a estratégia perfeita: essas pessoas importantes ficam ali comigo no rio sem ter para onde ir”, disse um bem-humorado Seligmann a EXAME depois de sua última visita ao Pantanal, em meados de agosto. “O resultado é que elas têm de me ouvir.”

Quem é Peter Seligmann
Formação
Bacharel em ecologia da vida silvestre pela Rutgers University, nos Estados Unidos, e mestre em ciência florestal e ambiental pela Yale University
Cargo
Presidente do conselho e principal executivo da Conservação Internacional (CI), ONG ambiental que fundou em 1987 e que hoje está em mais de 40 países
Por que ele é ouvido pelos CEOs
“Aprendi desde cedo que não poderia falar em meio ambiente sem falar em desenvolvimento econômico”
Empresas que ele levou para o conselho da CI
British Petroleum, Dream Works, Gap, Hyatt e Starbucks, entre outras

 Um convidado notável de Seligmann em suas viagens é Rob Walton, presidente do conselho de administração da Wal-Mart e filho de Sam Walton, o fundador da maior rede de varejo do mundo. Depois de visitarem juntos o Brasil, a Costa Rica e as Ilhas Galápagos, Walton se integrou ao conselho da CI, doou 21 milhões de dólares a programas de conservação marinha e aceitou apresentar Seligmann a Lee Scott, o presidente executivo da Wal-Mart, empresa tradicionalmente apegada aos baixos custos que nunca havia manifestado grande apreço às causas ecológicas. As conversas entre Scott, Seligmann, técnicos da Conservação Internacional e especialistas de outras organizações levaram a empresa a adotar uma estratégia ambiciosa que poderá gerar milhões em economia e influenciar 60 000 fornecedores — provocando a incorporação de práticas de sustentabilidade numa escala jamais vista no mundo dos negócios.

 Entre outras ações, a Wal-Mart se comprometeu a reduzir 30% a geração de resíduos e o consumo de energia em suas mais de 6 000 lojas (o que resultará em redução de custos), a aumentar em 25% a eficiência logística dos veículos que transportam os seus produtos (diminuindo gastos com combustível e a emissão de gases do efeito estufa) e a ampliar a compra de produtos orgânicos (a companhia já é a maior compradora mundial de algodão orgânico). “A Wal-Mart gasta 300 milhões de dólares por ano compactando as embalagens que recebe de seus fornecedores e mandando esse lixo para aterros”, diz Seligmann. “Isso significa que incentivar os fornecedores a usar embalagens recicláveis pode gerar economia de 3 bilhões em uma década, o que é ótimo para os negócios e para o meio ambiente.” 

Seligmann convence empresários e executivos como Walton e Scott porque não é um ecochato — e porque entende de negócios. Em suas conversas, ele usa argumentos precisos e exemplos palpáveis para demonstrar como a adoção de práticas ambientalmente corretas pode gerar benefícios tangíveis para as companhias — como garantia de suprimento, economia de custos ou melhoria na reputação perante investidores, consumidores e funcionários, entre outros. “Ele usa uma linguagem que as empresas entendem”, diz Marcos de Moraes, presidente da fabricante de cachaça Sagatiba, que já participou de reuniões na sede da CI em Washington. Formado em ecologia da vida silvestre e mestre em ciências, Seligmann conta que cresceu como um apaixonado pela natureza numa família de homens de negócios. “Lembro de ouvir conversas entusiasmadas entre meus tios que trabalhavam no mercado financeiro em Nova York e outros tios que eram empreendedores no Brasil”, diz. “Isso me levou, desde cedo, a querer entender a relação entre conservação ambiental e desenvolvimento econômico.” 

EM 1987, DEPOIS DE TRABALHAR para The Nature Conservancy, Seligmann fundou a Conservação Internacional. Pouco tempo depois, fez uma viagem à América Latina. Estava visitando as florestas do Peru quando o então presidente do país, Alan García, anunciou o calote na dívida externa. “Eu não entendia como um país tão rico em recursos naturais não tinha dinheiro para pagar a dívida”, diz Seligmann. De volta aos Estados Unidos, ele articulou uma operação financeira com o Bank of America para comprar parte da dívida de países em dificuldades em troca do investimento em projetos de conservação da biodiversidade. “A experiência me convenceu de que nossos projetos deveriam ter como objetivo gerar riqueza econômica para as comunidades locais por meio da proteção ao meio ambiente”, diz. 

Essa visão pragmática — que só recentemente começou a ser aceita pelo movimento ambientalista mundial — moldou a cultura da CI, hoje uma organização respeitada internacionalmente e com presença em mais de 40 países. Diferentemente das ONGs ambientalistas que preferem chamar a atenção por meio de protestos barulhentos ou boicotes às corporações, Seligmann e Russell Mittermeier, presidente da CI desde 1989, deram à instituição um perfil mais científico — há entre os funcionários muitos doutores e mestres — e desde cedo envolveram empresários em seus projetos. Um dos primeiros a ser cooptados foi Gordon Moore, da Intel. Logo nos primeiros anos da CI, Seligmann escreveu uma carta a Moore. “Ele me enviou uma resposta cordial e um cheque de 100 dólares. Pedi para conhecê-lo”, diz. “Quando nos encontramos, ele me perguntou: ‘Você realmente visita todos os que doam 100 dólares para sua organização?’ ” Moore — que depois de se aposentar do conselho de administração da Intel estava interessado em projetos relacionados ao meio ambiente — não só se aproximou de Seligmann como passou a integrar o conselho da CI e a discutir estratégias de mensuração de resultados em conservação. No final dos anos 90, Moore fez uma doação de 35 milhões de dólares à ONG para a criação de um centro de estudos em biodiversidade. 

EM 2005, CERCA DE 8% DA RECEITA de 92 milhões de dólares da Conservação Internacional veio de parcerias com o setor privado. Com o McDonald’s, a ONG está trabalhando para desenvolver, por exemplo, normas de pescaria sustentável. “A exploração irresponsável já fez com que a população de alguns dos peixes que consumimos fosse reduzida até 70%”, diz Seligmann. “Isso é um risco para uma empresa que usa carne de peixe como matéria-prima.” A preocupação sobre como o cultivo de algumas commodities pode provocar a destruição de florestas e prejudicar pequenos produtores levou a CI até a Starbucks. “A estratégia da Starbucks é fazer com que as pessoas gostem tanto da empresa a ponto de aceitar pagar mais dinheiro por uma xícara de café”, afirma. “Por isso, fazer as coisas de maneira correta é importante para o negócio deles.” Entre outras ações, a rede de cafeterias incluiu critérios socioambientais na avaliação de seus fornecedores e doou 2,5 milhões de dólares a um fundo que apóia produtores comprometidos com a conservação ambiental.

Influência verde
Um dos méritos da Conservação Internacional é estimular mudanças em grandes companhias — em vez de simplesmente atacá-las.Veja exemplos de projetos desenvolvidos sob orientação da organização:
Wal-Mart Starbucks McDonald’s

 No Brasil, uma das companhias que trabalham com a CI é a Bunge. Desde 2003 ela desenvolve no cerrado um projeto piloto para aliar produção agrícola e conservação ambiental. O programa prevê, entre outras coisas, a recuperação de áreas degradadas e o mapeamento das propriedades de fornecedores da empresa. A CI também está trabalhando com a Alcoa para criar um modelo de extração sustentável de bauxita na Amazônia, no Projeto Juriti, no Pará. Mas a experiência que parece mais entusiasmar Seligmann no momento é mesmo a da Wal-Mart. “Houve um tempo em que companhias desse porte simplesmente não falavam com ambientalistas”, afirma. “Agora elas pedem nossa ajuda e querem influenciar milhares de outras empresas. Se a estratégia da Wal-Mart der certo, a discussão sobre sustentabilidade mudará de patamar.”