Um fimdi em BH

Alguns amigos queridos estarão passando por BH em breve para um casório no interior e, com tanta vontade que fico que elas tenham uma experiência maravilhosa na minha cidade natal, resolvi compilar aqui umas dicas e links que acho legais para que a viagem seja um sucesso. 🙂

Pedacinho da Praça da Liberdade - foto do Estado de Minas

Pedacinho da Praça da Liberdade – foto do Estado de Minas

Chegando em BH de avião
Passagem comprada, vai googlar o aeroporto de Confins e se descobre que ele faz bem jus ao nome, distante um bocado da área central da cidade. Antes de resolver alugar carro ou pegar um taxi, minha recomendação é ir para BH no busu do Conexão Aeroporto (veja os preços e faça as contas de acordo com suas necessidades…). Uso sempre, tem um guichê já perto da saída do ônibus, aceita cartão de crédito e o ponto final é bem no centro da cidade. De lá, pode-se pegar um taxi para qualquer lugar.
Onde se hospedar
Minha opinião é que a melhor região pra ficar e turistar é a região de Lourdes. Quanto mais próximo da Praça da Liberdade, melhor a localização. Por isso acho perfeita a localização do Ibis Liberdade, na Av. João Pinheiro, pertinho de tudo. Dali se está a um passo dos Centros Culturais na Praça da Liberdade, da Feira Hippie, Mercado Central, bares, teatros, restaurantes. Dá pra fazer muita coisa (quase tudo) a pé. Há uma concentração maior de hotéis pros lados da Savassi e da Av. Alvares Cabral, também. Descendo em direção à Rodoviária, já ficará mais próximo do centrão da cidade.
Restaurantes Mineiros
Por incrível que pareça, praticamente não conheço os famosos. Comida mineira pra mim é comida de casa, pra encontrar a família – um bom tropeiro, um torresminho e linguiça caseiros, um tutu de feijão…. de sobremesa, queijo de Minas com doce de leite, goiabada feita em casa. Mas deixo aqui alguns restaurantes famosos da cozinha mineira caso queiram um almoço típico:
http://www.restaurantexapuri.com.br – este eu conheço. Tem uma carne seca na moranga divina e uma mesa de doces mineiros de enlouquecer.
Se não tem mar…
Olhe praquele botequinho copo sujo em qualquer esquina em BH. Pode ter certeza que a cerveja estará gelada e que lá tem algum petisco da casa que, por mais comum que seja, será preparado com primor. Frequentar bar, em BH, é programa de família – dê uma volta na cidade no sábado à tarde e você verá pessoas de todas as idades, estirpes, gêneros e inclinações políticas pelos bares da cidade. Há alguns lugares clássicos e cada mineiro tem o seu boteco do coração. Eu morei em Santa Teresa, então meus dois bares são de lá: o Bolão, na Praça do bairro, e o bar do Chumba. Lembro com saudades do filé rochedão e do macarrão a bolonhesa do primeiro e dos pasteis de carne do segundo, nham! O melhor é consultar o Comida di Buteco pra ver quais os bares próximos de onde você está. Para dificultar as escolhas, alguns links abaixo.
Foto Luciano Baêta em Skyscrapercity

Skyline de BH – foto: Luciano Baêta

Noite em BH
Ah, a cidade tem uma noite incrível. Tem excelentes boites, ótimos restaurantes, mas sobre esses eu não posso dar dicas, não conheço. Quando vou a BH ou me encontro com os amigos em suas casas ou vou para algum barzinho. Então como sugestão para a noite, sendo que as minhas começam e terminam cedo, eu deixo o Albano´s, que tem um chopp excelente, serviço de primeira qualidade e tira-gostos saborosos. O Albano´s da rua Rio de Janeiro é uma graça. Vai lá ver em http://www.albanos.com.br/.
Comidinhas
Dois lugares para comprar coisinhas de comer em BH a serem visitados, caso tenham tempo.
O primeiro também é atração turística, que é o Mercado Central, um excelente lugar para almoçar também. Lá você encontra todas as iguarias mineiras para levar ou, como no meu caso, para repor o estoque quando a crise de abstinência de queijo ou doce de leite ataca. Gosto de almoçar no Casa Cheia e ver o movimento do mercado.
Conheça o Mercado aqui http://www.mercadocentral.com.br/
O segundo lugar é o supermercado Verdemar, onde há o melhor pão de queijo congelado da cidade. Lá também eu faço meus estoques e trago pra casa. Compro lá mesmo a sacola térmica que eles vendem, encho de saquinhos de pão de queijo e biscoitos 3 queijos (tipo um pão de queijo turbinado com mais queijos) e volto pra casa bem feliz.
Compras
O Mercado, já citado acima, e a famosa Feira Hippie. Quando dizem que ela é grande, que tem tudo, acho que não dá pra visualizar ou preparar uma pessoa para o que vai encontrar. Por isso que quando vou falar da Feira eu googlo logo uma foto aérea e mostro. Ela é ENORME. Para visitar a Feira, eu recomendo:
1- Chegar cedo (entre 7h-8h), porque ela enche rápido e as coisas boas também acabam rápido. E indo cedo você pode ir almoçar no Mercado Central, que nos domingos fecha às 13h. Pra mim é uma casadinha perfeita.
2- Se gostar de algo, compre logo na barraquinha. Sim, há chances de vc encontrar algo parecido mais pra frente, mas se caiu de amores, compre. Voltar em uma barraca na Feira Hippie é pesadelo.
3- Leve todas as formas de pagamento, principalmente dinheiro e cheque. Muitas lojas já aceitam cartão de crédito/débito, mas não são todas. E com dindin na mão a negociação fica mais interessante.
4- Se possível, não leve crianças ou adultos que não curtam compras. O programa é exaustivo, vão acabar se estressando e o programa não vai acabar não sendo bom pra ninguém. Combine de encontrar com essas pessoas no Mercado Central. Todo o mundo sai ganhando! 😀
Não há um site oficial da Feira Hippie, mas achei os links abaixo, todos com informações bem interessantes sobre a Feira.
Feira Hippie

O Parque Municipal e a Feira Hippie

Passeios em BH

Graças à todos os santos e orixás já se foi o tempo que BH era simplesmente um pouso pra os que iam visitar as cidades históricas. Além dos programas citados, que já animam bem um fim de semana, ainda temos:
O Conjunto Arquitetônico da Pampulha
A Igreja de São Francisco é realmente linda em todos os seus detalhes. Se estiver com pouco tempo, pelo menos pare pra ver a igreja no caminho pro Aeroporto…
O Circuito Cultural na Praça da Liberdade
Que coisa linda fizeram com a Praça da Liberdade! Ali eu passaria uma semana inteira só entrando e saindo dos museus. São modernos, interativos, alguns têm cafeterias bem interessantes.
Não conheço todos ainda, mas sempre em BH aproveito umas horinhas para visitar mais um. Recomendo o Memorial Minas Vale, o Museu das Minas e do Metal, a Casa Fiat de Cultura. Mas há ainda o Palácio da Liberdade, o CCBB de BH, que ainda preciso conhecer…
Museu de Artes e Ofícios 
Ah, essa é uma falta grave no meu currículo. Ainda não conheço o MAO. Mas sei que ele é lindo. Localizado na Praça da antiga Estação Central Ferroviária (para os íntimos: Praça da Estação) que foi totalmente restaurada, ele apresenta aos visitantes a história do trabalho e dos diversos ofícios presentes na vida do brasileiro nos últimos 3 séculos.
Cerveja Artesanal
BH hoje fervilha com muitas microcervejarias que produzem bebida de excelente qualidade. Há inclusive roteiros cervejeiros na cidade, já.
Elas ficam na saída da cidade, mas se você for um grande apreciador da bebida, recomendo visitá-las.
Tem a Kud, com cervejas com nomes de clássicos do rock e tonéis de aço batizados com nomes das grandes bandas – http://www.cervejariakud.com.br/. Se for lá, tome uma Tangerine ou uma Ruby Tuesday por mim. Lá tem um restaurante e abrem para eventos.
A Backer eu não conheço, mas meus amigos falam muito bem –  http://www.cervejariabacker.com.br/
Inhotim
Você já sabe das cidades históricas. E hoje a grande novidade da cidade é ir visitar Inhotim. Um guia completo está no site Viaje na Viagem, do guru e querido Ricardo Freire.
Que tal combinar a volta de Inhotim com uma paradinha no Restaurante Topo do Mundo para o por do sol?

Serra da Moeda – Foto: Jornal Hoje em Dia

A intenção é deixar estes meus amigos apaixonados por esse pedacinho querido de Minas e com vontade de voltar. Consegui? Depois me contem.

Alguns blogs sobre BH e Minas
http://www.viaggiando.com.br/search/label/CCPL (veja no Blog Viaggiando também o ótimo link sobre Viajar sem despachar bagagem. Um dia eu chego lá!)
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Botecos de BH colocam a cidade no NY Times…

É claro que um dia iam descobrir o verdadeiro valor de Beagá. O NY Times fez recentemente uma matéria excelente sobre Belo Horizonte. O texto é tão bom, se fosse em português eu o utilizaria para apresentar a cidade para todos que não a conhecem. 

Bh é isso aí mesmo: a cidade toda é um grande boteco. Ah, que delícia. E como tem boteco decente! Lugares honestos com cervejinha gelada e tira-gosto farto por preço justo. Adoro todos. TODOS, até os que ainda não conheço. Segue abaixo link e matéria, para a posteridade. Ai, que emoção! Ai, que saudade…

(melhor parte da matéria, o ‘manual básico de sobrevivência do bêbado’ que tá no final do texto)

http://travel.nytimes.com/2007/10/28/travel/28next.html?ref=travel

Next Stop | Belo Horizonte, Brazil

A Town Where All the World Is a Bar

Lalo de Almeida for The New York Times

Bar do Caixote one of Belo Horizonte’s plentiful informal botecos.

 

By SETH KUGEL

Published: October 28, 2007

BELO HORIZONTE, in the Brazilian state of Minas Gerais, has managed to become the country’s third-largest city while remaining almost completely unknown to the outside world. If tourists — more drawn to the sybaritic pleasures of Rio de Janeiro or the urban clamor of São Paulo — know it at all, it is because they may pass through it on their way to Ouro Preto and Diamantina, treating it as a little more than a refueling stop as they head toward those picturesque colonial-era mining towns.

Its international anonymity was born of no coastline and thus no beaches, no famous Carnival and thus no February madness, and no big attractions save a few buildings designed by Oscar Niemeyer that pale next to his famous works in Brasília.

But Beagá, the city’s nickname (from the pronunciation of its initials in Portuguese), does have a claim to fame: as the bar capital of Brazil. Not bars as in slick hotel lounges or boozy meat markets, but bars as in botecos, informal sit-down spots where multiple generations socialize, drink beer and often have an informal meal. If you believe the local bluster, there are 12,000 bars in the city, more per capita than anywhere else in the country. Why, no one is completely sure, but one theory has turned into a popular saying: “Não tem mares, tem bares.” Loosely: “There are no seas, thus there are bars.”

And though tourist guidebooks barely make mention of them, they make for a great way for travelers to dive into the social life of a city whose metropolitan area has exploded in recent decades to over five million inhabitants. The best time to come is for the eighth annual Comida di Buteco competition in April, when some 40 of the top bars square off in categories like hygiene, beer frigidity, service and most importantly, best tira-gosto — or appetizer. Winners are decided not just by judges but by public ballot, giving Belo-Horizontinos a flimsy excuse to go out every night for a month.

If you miss it, don’t worry. Every night of the year seems to have something of a party feel in this off-the-radar screen hot spot. Get your feet wet at Mercearia Lili (Rua São João Evangelista, 696, Santo Antônio, 55-31-3296-1951), a regular participant in Comida di Buteco. It is one bar of many in Santo Antônio, an upscale neighborhood of steep hills that require superhuman parallel parking skills or, preferably, use of the city’s metered taxis.

The bar is typical in many ways, not least of which is the furniture: yellow plastic tables and chairs, with the maroon Skol beer logo, spilling out onto the sidewalk (600-milliliter bottles of the Pilsener Skol, to be shared in small glasses, are the citywide order of choice). The buzz of conversation and the clink of bottles — not a D.J. — provide the soundtrack; grey hair and what in the United States would be underage youth share the tables.

Not far away is Via Cristina (Rua Cristina, 1203, Santo Antônio, 55-31-3296-8343). It’s more upscale with tables covered in green and white checkerboard tablecloths, uniformed waiters and a wall of cachaça — hundreds of different bottles of the sugar cane liquor — that the bartenders use a library-style bookshelf ladder to reach. Their entry in this year’s contest was the Raulzito, a fritter-like pastry filled with dried beef that can be had for two reais (about $1.10 at 1.84 reais to the dollar)

If there were a Comida di Buteco award for “Hardest to Get To,” the Freud Bar (no address, Nova Lima, 55-31-8833-9098, freudbar.com for map) would win every year. The place is plunked down in the middle of some woods outside the city, down a winding unpaved road. The bar is built into a hill, warmed by a bonfire, and has a few tables actually in the surrounding trees. It has live music (blues and rock), and serves a limited but creative menu, like mulled wine, or a cup of squash, mozzarella and chicken soup (3.50 reais), a nice break from the bean and pork rind soup that is available at just about every boteco.

Botecos are not just nighttime affairs, as you’ll find if you head to the city’s Central Market on a weekend afternoon. Sure, there are stands selling fruit, meat, the state’s famous cheese, live dogs and birds (as pets), and live hens (as dinner). But the market is also full of uproarious, packed bars like Lumapa, where authorities must chain off a chokingly slender pedestrian walkway so the non-beer-drinking shoppers can get by. A calmer choice is Casa Cheia (Central Market, store 167, Centro, 55-31-3274-9585) a sit-down place serving all its past Comida di Buteco creations, like the Mexidoido chapado, a mishmash of rice, vegetables, four kinds of meat, and quail eggs.

It is also worth heading to the more far-flung neighborhoods to see some of the quirkier takes on the bar theme. (With 11,999 competitors, you do what you can to stand out.) The ultra-informal Bar do Caixote (Rua Nogueira da Gama, 189, João Pinheiro, 55-31-3376-3010) literally means “Bar of the Crate,” and sure enough, the tables and chairs are wooden crates. The overall winner of the 2007 Comida de Buteco, Bar do Véio, or “Bar of the Old Guy” (Rua Itaguaí, 406, Caiçara, 55-31-3415-8455) is in an outer neighborhood and your cab driver may have trouble finding it, but anyone in the area can direct you. Their simple dish of chunks of pork and tiny golden-fried balls of potato served with a standout pineapple and mint sauce was the 2007 tira-gosto winner.

When you need a bar break, take an afternoon trip to the Pampulha neighborhood, where several Niemeyer buildings stand, including his famous Church of São Francisco de Assis. The neighborhood also houses Belo Horizonte’s most famous restaurant, Xapuri (Rua Mandacaru, 260, Pampulha, 55-31-3496-6198), the best place in town to try the traditionally rustic cuisine of Minas Gerais. And Sunday morning, you can find unusual gifts at the Hippie Fair (a k a the Feira de Arte e Artensanato da Afonso Pena), two long blocks on Avenida Alfonso Pena crammed with clothing, jewelry, household goods and crafts. When you’re done, stop at food stalls at either end for fried fish or coconut sweets, or pop into the beautifully landscaped Municipal Park park just below the fair to relax. In either place, you won’t be far from a vendor ready to crack you open a can of Skol. In Belo Horizonte, the world’s a bar.

VISITOR INFORMATION

HOW TO GET THERE

Flights from New York to Belo Horizonte usually require a stop in São Paulo. A recent Web search showed round-trip fares on TAM Brazilian Airlines starting at about $1,100 for travel in November.

WHERE TO STAY

The Mercure Belo Horizonte Lourdes (Avenida do Contorno, 7315, 55-31-3298-4100; www.mercure.com), part of a dependable chain, is modern and theirs is always a taxi waiting out front for you. Double rooms start at 174 reais on weekends and 245 reais during the week ($95 and $133 at 1.84 reais to the U.S. dollar).

PORTUGUESE BAR PRIMER

Cerveja (sare-VAY-zha): beer; Garrafa (ga-HAHF-ah): bottle; Chopp (SHO-pee): draft beer; Mais uma!: I’ll have another!; Desce mais uma rodada: One more round; Saideira (sah-ee-DARE-a): One last round. 

Comidinhas em extinção

Semana passada fui presenteada com uma comidinha baiana que está em extinção, o acaçá. Ele tá em extinção, segundo fui informada, porque é difícil de fazer, de conservar, estraga logo…dá um trabalhão… etc etc etc.

Ele tem um sabor parecido com o da tapioca, mas a consistência é diferente. E a forma é de um mini abarazinho, embalado nessas folhas de bananeira. É comida de orixá, origens africanas.

Acho que, se não tomarmos muito cuidado, outra comidinha que pode entrar em extinção é o pão de queijo caseiro. Porque há uns 15 anos atrás, havia duas possibilidades de comer pão de queijo, em Minas: ou comprar na padaria, já pronto, quentinho, ou ajudar a fazer a massa em casa e colocar pra assar, por aquela receita que só a sua familia tinha, e que era melhor quando a sua mãe/tia/vó fazia. Minha mãe mesmo tinha umas 3 receitas, que fazíamos com frequência, desde que tivesse um queijo digno de ser utilizado para este fim e era quase um ritual familiar – um ajudava a ralar o queijo, o outro mexia a massa (cansa…) etc etc….

Hoje não – apesar de não ter o sabor desses aí, a gente acaba comprando esses pães de queijo congelados, da Casa do Pão de Queijo ou Forno de Minas ou outro que se diz caseiro qualquer, que só enganam quem não é mineiro. Pra mim, eles parecem biscoito de ovo. Não tem queijo!!!! Impressionante!!!!

Mas há uma exceção: o Pão de QUeijo do Supermercado Verdemar, em BH. Não tem gostinho ‘roots’ de pão de queijo caseiro, mas é um congelado que vale, tem sabor, tem queijo, tem cheiro bom. Deve haver uma dessas doninha com cara de tia da gente coordenando a linha de produção, só pode….

Todo dia… era dia de indio….

Por uma boa parte da população de amigos mineiros com quem convivo, eu sou conhecida não como Adriane, e sim como Xingu. Vai entender lá porque esse apelido pegou… eu segui as instruções de mamãe: “não ligue, que aí pega. Se você não ligar, o apelido passa, as pessoas param.” Só que eu, em vez de não ligar, dava corda. Aí o efeito foi inverso e eu, aos 32 anos, mais de 20 anos depois de ganhar esse apelido, ainda sou gritada nas ruas de Beagá por Xingu.

Foi na quinta série, 1986 e eu com corte de cabelo channel, na altura da orelha. E com essa têz que me persegue (graças a deus. Adoro minha cor). E o Haroldo, professor de Matemática, com a mania de botar apelido em metade da sala. O meu foi Xingu porque na época estava passando o documentário Xingu na Rede Manchete – lembra?. E então ele dançava o Quarup na frente da sala… hoje, pensando bem, não sei o que ele queria. Coitado, né, os professores realmente fazem qualquer coisa pra atrair a atenção de um bando de pré-adolescentes, na faita dos 11 a 13 anos. O que sei é que todo o mundo ria e eu identifiquei, óbvio que inconscientemente, uma marca que eu poderia explorar. Quem estudou comigo até o terceiro ano científico sabe no que deu – meu primeiro fenômeno de popularidade.

De lá pra cá, muitos fatos engraçados: desfile de fantasia na escola (tenho foto, no segundo ano do segundo grau, não coloco aqui porque vai que copiam…); professores que não se lembram de mim pelo nome e sim pelo apelido; amigos da época que atéééé hoje encontro e me chamam de Xingu. “Adriane” é para estranhos. Não tenho o que reclamar, é um apelido muito querido e que me rendeu boas amizades.

Um fato que não esqueço foi estar uma vez zanzando pela Feira Hippie, ainda morando em BH, e ouvir a Rádio Feira me chamar: “Atenção Matheus, Aurélio e Xingu – Isabel aguarda vocês em frente da entrada principal do Palácio das Artes”. Essa familia Quirino, sei não….

E, também, a ligação de praxe que eu recebo no dia de hoje – o Matheus pode até esquecer meu aniversário, como geralmente acontece. Mas o Dia do Índio, ainda não me recordo de um ano que ele tenha esquecido….

Outro dia a Helena me chamou de Xingu. Fiquei horrorizada. Logo ela, que me conhece desde o pré-primário! Tsc, tsc, tsc. Mas acho que pode ser um case de valor agregado a marca (branding) a ser estudado… ou então, assumir: é realmente o fim dos tempos!

Sotaque Mineiro: É ilegal, imoral ou engorda?

Felipe Peixoto Braga Netto (1973) afirma que não é jornalista, não é
publicitário, nunca publicou crônicas ou contos, não é, enfim,
literariamente falando, muita coisa, segundo suas palavras. Mora em Belo
Horizonte e ama Minas Gerais. Ele diz que nunca publicou nada, mas a crônica
que apresentamos foi extraída do livro “As coisas simpáticas da vida”, Landy
Editora, São Paulo (SP) – 2005, pág. 82.

SOTAQUE MINEIRO: É ILEGAL, IMORAL OU ENGORDA?

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se
tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o
falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando:
ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para
assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?
Assino achando que ela me faz um favor. Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse
sotaque me desarma.

Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só
pelo sotaque. Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.
Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem:
pode parar, dizem: “pó parar”. Não dizem: “onde eu estou?”, dizem: “ôncôtô?.

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e
levianamente, que os mineiros vivem – lingüisticamente falando – apenas de
uais, trens e sôs. Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é
competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco
importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô.
Se der no couro – metaforicamente falando, claro – ele é bom de serviço. Faz
sentido…

Mineiras não usam o famosíssimo “tudo bem”. Sempre que duas mineiras se
encontram, uma delas há de perguntar pra outra: “cê tá boa?” Para mim, isso
é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: – Mexe com isso não, sô
(leia-se: sai dessa, é fria, etc). O verbo “mexer”, para os mineiros, tem os
mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe
perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu
ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue
nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo,
você liga e diz:- Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.

Esse “aqui” é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de
punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você
quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá,
me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo
na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem “apaixonado por”. Dizem, sabe-se lá por que,”apaixonado
com”. Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: “Ah, eu
apaixonei com ele…”. Ou: “sou doida com ele” (ele, no caso, pode ser você,
um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa. Que os
mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim,
fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: “E aí, vão?”. Traduzo: “E
aí, vamos?”. Não caia na besteira de esperar um “vamos” completo de uma
mineira. Não ouvirá nunca.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com
todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São
barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que
precisa ir a um lugar, vai dizer:- Eu preciso de ir. Onde os mineiros
arrumaram esse “de”, aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem.
Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em
cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém
precisa ir a lugar nenhum. Entendam… Você não precisa ir, você “precisa de
ir”. Você não precisa viajar, você “precisa de viajar”. Se você chamar sua
filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará: Ah, mãe, eu preciso
de ir?

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de
coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a
fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu?
Agarrar é agarrar, ora! Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um
mendigo e ficar com pena,suspirará: – Ai, gente, que dó.

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.
Não vem caçar confusão pro meu lado. Porque, devo dizer, mineiro não arruma
briga, mineiro “caça confusão”. Se você quiser dizer que tal sujeito é
arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele “vive caçando
confusão”.

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é
muitíssimo bom vai dizer: “Ô, é sem noção”. Entendeu, leitora? É sem noção!
Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por
favor, o “Ô” no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que
algo é sem noção, entendeu?

Capaz…
Se você propõe algo ela diz: capaz !!!Vocês já ouviram esse “capaz”? É
lindo! Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer “cê acha que eu faço isso”!? com
algumas toneladas de ironia.. Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen,
ela dirá: “ô dó dôcê”. Entendeu? Não? Deixa para lá. É parecido com o
“nem…”. Já ouviu o “nem…”? Completo ele fica:- Ah, nem…

O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não
fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: “Meu
amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?”. Resposta: “nem…” Ainda
não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: “você não vai?”. A pergunta,
mineiramente falando, seria: “cê não anima de ir”? Tão simples. O resto do
Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem…

Falando em “ei…”. As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o “ei” no
lugar do “oi”. Você liga, e elas atendem lindamente: “eiiii!!!”, com muitos
pontos de exclamação, a depender da saudade… Tem tantos outros… O
plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não
nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes
vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a
oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá comprar
umas coisas…- Que’ s coisa? – ela retrucará. O plural dá um pulo. Sai das
coisas e vai para o que. Ouvi de uma menina culta um “pelas metade”, no
lugar de “pela metade”. E se você acusar injustamente uma mineira, ela,
chorosa, confidenciará: – Ele pôs a culpa “ni mim”.

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas… Ontem , uma
senhora docemente me consolou: “preocupa não, bobo!”. E meus ouvidos, já
acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se
espantassem se ouvissem um: “não se preocupe”, ou algo assim. A fórmula
mineira é sintética. E diz tudo.

Até o tchau em Minas é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: “tchau pro cê”, “tchau pro cês”. É útil deixar claro o
destinatário do tchau.

Fernando Sabino

Domingo eu aproveitei minha estada em Beagá pra ver a expo “Encontro Marcado com Fernando Sabino”. Nada melhor que ir acompanhada dos grandes amigos – e fomos eu, o Matheus, a Helena e o Eduardo, namorado da Lena.

Não dá pra ficar descrevendo senão perde a graça. Mas a exposição é linda demais. Eu sou fã do cara, então sou suspeita pra falar. Fã mesmo, com livro autografado e tudo.

Hoje tentei encontrar algo na web sobre a expo pra colocar aqui, mas não achei muita coisa. Em compensação, achei a crônica abaixo, que é muito boa.

Minas Enigma

Fernando Sabino

  Minas além do som, Minas Gerais (Carlos Drummond de Andrade)


Se sou mineiro? Bem, é conforme, dona. (Sei lá por que ela está perguntando?) Sou de Belzonte, uai.

Tudo é conforme. Basta nascer em Minas para ser mineiro? Que diabo é ser mineiro, afinal? Inglês misturado com oriental? É fumar cigarro de palha, como o poeta Emílio, de Dores do Indaiá? Autran fuma cachimbo. Tem até quem fume cigarro americano. (No bairro do Calafate havia uma fábrica de “Camel”.) Em suma: ser mineiro é esperar pela cor da fumaça. É dormir no chão para não cair da cama. É plantar verde pra colher maduro. É não meter a mão em cumbuca. Não dar passo maior que as pernas. Não amarrar cachorro com lingüiça.

Porque mineiro não prega prego sem estopa. Mineiro não dá ponto sem nó. Mineiro não perde trem.

Mas compra bonde.

Compra. E vende pra paulista.

Evém mineiro. Ele não olha: espia. Não presta atenção: vigia só. Não conversa: confabula. Não combina: conspira. Não se vinga: espera. Faz parte do decálogo, que alguém já elaborou. E não enlouquece: piora. Ou declara, conforme manda a delicadeza. No mais, é confiar desconfiando. Dois é bom, três é comício. Devagar que eu tenho pressa.

Apólogo mineiro: o boi velho e o boi jovem, no alto do morro — lá embaixo uma porção de vacas pastando. O boizinho, incontido:

— Vamos descer correndo, correndo e pegar umas dez?

E o boizão, tranqüilamente:

— Não: vamos descer devagar, e pegar todas.

Mais vale um pássaro na mão. A Academia Mineira, há tempos, pagava um jeton ridículo: duzentos cruzeiros — antigos, é lógico. Um dos imortais, indignado, discursava o seu protesto:

— Precisamos dar um jeito nisso! Duzentos cruzeiros é uma vergonha! Ou quinhentos cruzeiros, ou nada!

Ao que um colega prudentemente aparteou:

— Pera lá: ou quinhentos cruzeiros, ou duzentos mesmo.

Quem nasce em Três Corações é tricordiano — haja vista Pelé. Quem nasce em Barbacena tem de escolher a Maternidade: ou é do Zezinho ou do Bias. E a Manchester Mineira, terra do Murilo Mendes? O poeta Nava foi-se embora: “parabéns a Pedro Nava, parabéns a Juiz de Fora”. Itabira, calçada de ferro: não aceitou chamar-se Presidente Vargas, continuou digna do itabirano Carlos. E Ouro Preto continua digna de ser vista: ali é a casa do Rodrigo; Renato de Lima, ex-delegado e pianista amador, pintando junto à Casa dos Contos. Afonso é de Paracatu. Em Sabará nasceram Lúcia e Aníbal, além de outros ilustres Machados. Alphonsus, o solitário de Mariana. Os profetas de Congonhas. A cidade de Tiradentes — o que não tinha barbas. O Aleijadinho não tinha mãos. São João del Rei, onde nasceu Otto, o que morrerá batendo papo. Solidário só no câncer? Absolutamente, dona: nas virtudes também, uai. Haja vista a Tradicional Família Mineira, que Deus a tenha. As estações de águas: lembrança de São Lourenço, escrito num copinho. E Lambari, terra de Henriqueta! Monte Santo tem a rua mais iluminada do mundo. E uma ambulância com sirene, que seu filho Castejon arranjou. Itaúna fica num quarto andar do Leblon, no apartamento de Marco Aurélio, o bom. Jeremias, outro bom, mineiro como Ziraldo. Os bonecos de Borjalo só ganharam boca depois que começaram a falar. Mineiro por todo lado! O poeta Pellegrino, como psiquiatra, tem garantida uma numerosa clientela. Amílcar modela Minas em arame. Paulo encontrou Minas depois que saiu de lá. João Leite levou-a para São Paulo, Alphonsus para Brasília, Guilhermino para o Sul. João Camilo ficou. Etiene voltou. Paulo Lima voltou. Iglezias voltou. Jaques voltou.Figueiró continua, Rubião recomeçou.

Um Estado de nariz imenso, um estado de espírito: um jeito de ser. Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado — prudência e capitalização.

O guarda-chuva da proteção financeira, não como lema do Banco do Magalhães mais o Zé Luís, e sim como regra de conduta:

— Meu filho, ouça bem o seu pai: se sair à rua, leve o guarda-chuva, mas não leve dinheiro. Se levar, não entre em lugar nenhum. Se entrar, não faça despesas. Se fizer, não puxe a carteira. Se puxar, não pague. Se pagar, pague somente a sua.

Mas todos os princípios se desmoronam diante de um lombo de porco com rodelas de limão, tutu de feijão com torresmos, lingüiça frita com farofa. De sobremesa, goiabada cascão com queijo palmira. Depois, cafezinho requentado com requeijão. Aceita um pão de queijo? biscoito polvilho? brevidade? ou quem sabe uma broinha de fubá? Não, dona, obrigado. As quitandas me apertencem, mas prefiro bolinho de januária, e pronto: estou sastifeito

É a hora e a vez de Guimarães Rosa sorrir e dizer pra cumpadre meu Quelemén: perigoso nada, mira e veja, nas Gerais, essas coisas…

Falar de Minas, trem danado, sô. É falar no mundo misterioso de Lúcio Cardoso, Cornélio Pena ou Rosário Fusco, no mundo irônico, esquivo ou pitoresco de Cyro dos Anjos, Oswaldo Alves, Mário Palmério, seus romancistas. E num mundo de gente, seus personagens, que vão de Antônio Carlos a Milton Campos, de Bernardes a Juscelino — vasto mundo! ah, se eu me chamasse Raimundo. Dentro de mim uma corrente de nomes e evocações antigas, fluindo como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais. Leopoldina, doce de manga, terra de meus pais… Prefiro estancá-las no tempo, a exaurir-me em impressões arrancadas aos pedaços, e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim — o mistério da minha terra, desafiando-me como a esfinge com o seu enigma: decifra-me , ou devoro-te.

Prefiro ser devorado.