Sotaque Mineiro: É ilegal, imoral ou engorda?

Felipe Peixoto Braga Netto (1973) afirma que não é jornalista, não é
publicitário, nunca publicou crônicas ou contos, não é, enfim,
literariamente falando, muita coisa, segundo suas palavras. Mora em Belo
Horizonte e ama Minas Gerais. Ele diz que nunca publicou nada, mas a crônica
que apresentamos foi extraída do livro “As coisas simpáticas da vida”, Landy
Editora, São Paulo (SP) – 2005, pág. 82.

SOTAQUE MINEIRO: É ILEGAL, IMORAL OU ENGORDA?

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se
tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o
falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando:
ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para
assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?
Assino achando que ela me faz um favor. Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse
sotaque me desarma.

Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só
pelo sotaque. Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.
Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem:
pode parar, dizem: “pó parar”. Não dizem: “onde eu estou?”, dizem: “ôncôtô?.

Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e
levianamente, que os mineiros vivem – lingüisticamente falando – apenas de
uais, trens e sôs. Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é
competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco
importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô.
Se der no couro – metaforicamente falando, claro – ele é bom de serviço. Faz
sentido…

Mineiras não usam o famosíssimo “tudo bem”. Sempre que duas mineiras se
encontram, uma delas há de perguntar pra outra: “cê tá boa?” Para mim, isso
é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: – Mexe com isso não, sô
(leia-se: sai dessa, é fria, etc). O verbo “mexer”, para os mineiros, tem os
mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe
perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu
ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue
nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo,
você liga e diz:- Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.

Esse “aqui” é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de
punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você
quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá,
me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo
na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem “apaixonado por”. Dizem, sabe-se lá por que,”apaixonado
com”. Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: “Ah, eu
apaixonei com ele…”. Ou: “sou doida com ele” (ele, no caso, pode ser você,
um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa. Que os
mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim,
fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: “E aí, vão?”. Traduzo: “E
aí, vamos?”. Não caia na besteira de esperar um “vamos” completo de uma
mineira. Não ouvirá nunca.

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com
todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São
barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que
precisa ir a um lugar, vai dizer:- Eu preciso de ir. Onde os mineiros
arrumaram esse “de”, aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem.
Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em
cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém
precisa ir a lugar nenhum. Entendam… Você não precisa ir, você “precisa de
ir”. Você não precisa viajar, você “precisa de viajar”. Se você chamar sua
filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará: Ah, mãe, eu preciso
de ir?

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de
coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a
fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu?
Agarrar é agarrar, ora! Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um
mendigo e ficar com pena,suspirará: – Ai, gente, que dó.

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.
Não vem caçar confusão pro meu lado. Porque, devo dizer, mineiro não arruma
briga, mineiro “caça confusão”. Se você quiser dizer que tal sujeito é
arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele “vive caçando
confusão”.

Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é
muitíssimo bom vai dizer: “Ô, é sem noção”. Entendeu, leitora? É sem noção!
Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por
favor, o “Ô” no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que
algo é sem noção, entendeu?

Capaz…
Se você propõe algo ela diz: capaz !!!Vocês já ouviram esse “capaz”? É
lindo! Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer “cê acha que eu faço isso”!? com
algumas toneladas de ironia.. Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen,
ela dirá: “ô dó dôcê”. Entendeu? Não? Deixa para lá. É parecido com o
“nem…”. Já ouviu o “nem…”? Completo ele fica:- Ah, nem…

O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não
fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: “Meu
amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?”. Resposta: “nem…” Ainda
não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

A propósito, um mineiro não pergunta: “você não vai?”. A pergunta,
mineiramente falando, seria: “cê não anima de ir”? Tão simples. O resto do
Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem…

Falando em “ei…”. As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o “ei” no
lugar do “oi”. Você liga, e elas atendem lindamente: “eiiii!!!”, com muitos
pontos de exclamação, a depender da saudade… Tem tantos outros… O
plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não
nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes
vocabulares das mineiras.

Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a
oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá comprar
umas coisas…- Que’ s coisa? – ela retrucará. O plural dá um pulo. Sai das
coisas e vai para o que. Ouvi de uma menina culta um “pelas metade”, no
lugar de “pela metade”. E se você acusar injustamente uma mineira, ela,
chorosa, confidenciará: – Ele pôs a culpa “ni mim”.

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas… Ontem , uma
senhora docemente me consolou: “preocupa não, bobo!”. E meus ouvidos, já
acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se
espantassem se ouvissem um: “não se preocupe”, ou algo assim. A fórmula
mineira é sintética. E diz tudo.

Até o tchau em Minas é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: “tchau pro cê”, “tchau pro cês”. É útil deixar claro o
destinatário do tchau.

Anúncios

12 pensamentos sobre “Sotaque Mineiro: É ilegal, imoral ou engorda?

  1. É esranho identificar o próprio sotaque, né? Só fui perceber com clareza quando morei em Bsb e convivi com pessoas de todo canto. Acho que eu falo 90% do que está aí… E acho que vc tb… Só que com um “toque” baiano… Bj

  2. Adorei o texto, lembrei de vc falando, heheh.
    Mas esse autor é meio bobinho, né? Se ele se derrete com uma mineira falando, imagina o que vai acontecer quando ele escutar um oxe bem cantado no pé do ouvido??? Loucura, loucura, loucura…. kkkkkkkkkk

  3. Eiiii!!!!! tudo joia? Sou apaixonada por leitura
    e você escreve bem demais da conta.
    Sou mineiríssima e nunca vi um trem tão legal.
    Eu fui lendo e rindo. AMEI !!!!
    Aqui; sugiro que você continue, vá juntando minei-
    rinhas… eu posso “t’indicá” um tanto delas…
    Cê anima de fazer isso ?
    Tchau prô cê.

  4. Nossa esse trem é bão dimas da conta sô…

    nun tinha reparado nesse ”mineirês”
    antes de ler esse texto,q é supimpa…

    Felicidades…

    E Tchau pro’ cê!!!

  5. Legal! Adorei a reflexão sobre sotaque mineiro.
    Tenho certeza que é legal, não é imoral e nem engorda.
    Gostaria que soubesse duma coisa: não sei doncôvim, nenconsô nem proconvô.
    Êta trem bão!!!
    Tchau procê!

  6. Nossinhora cê ta de parabéns viu, o texto é ótimo, bão de mais da conta, me indentifiquei de cara com ele.
    Vou anexar aki um texto num sei se cê conhece!!!

    TREM DOIDIMAIS

    Sapassado, era sessetembro, taveu na cuzinha tomando uma pincumel e cuzinhano um kidicarne
    com mastumate pra fazer uma macarronada com galinhassada.

    Quascaí de susto , quandoví um barui vinde dendoforno, parecenum tidiguerra.

    A receita mandopô midipipoca denda galinha prassá. O forno isquentô, o mistorô e o fiofó da galinha ispludiu!

    Nossinhora!

    Fiquei branco quinein um lidileite. Foi um trem doidimais! Quascaí dendapia!

    Fiquei sensabê doncovim, proncovô, oncotô. Oiprocevê quilocura!

    Grazadeus ninguém simaxucô!

    Tchau procês

  7. Que lindoooo!!!!!Adorei.
    Sou da divisa de Minas com São Paulo, São Sebastião da Grama,divisa com Poços de Caldas.
    Moro ha 30 anos em São Paulo, mas até hoje me perguntam se sou mineira.
    Abraços.

  8. Kra sem noção eu naum sabia q falava com tanto sotake mineiro assim uaii…

    eu pensava q o sotake de mineiro era só o trem baum…bom dia mais da conta e o proprio uaii!

    mais depois de ler esse texto descobrir e a cada 10 palavra q falo 9 é do jeitinhu mineiro…ahsuahsuahsuas

    ameii o texto!!

  9. Muito bom ,sou mineira de coração,moro a 10 anos no Rio mais o meu sutake é de mineiro,ser mineiro e é bão dimas da conta sô.

  10. Adorei… Moro em Toronto, e aqui a gente consegue perceber o quanto mineiro e diferente mesmo, nao parece que somos de outro estado e sim outro mundo. Tenho muito orgulho do meu sotaque, nunca quero perde lo, nem um mucatinho sequer, falar bunitim assim e bao demais so.
    Tchau pro cess.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s