Na era do dinheiro sustentável

Na era do dinheiro sustentável
Revista Exame | 05.04.2007
O acesso das empresas ao capital — sobretudo o barato — vai depender cada vez mais de seu comportamento socioambiental
 
Por Ana Luiza Herzog

EXAME Se não por convicção, mas por puro pragmatismo e senso de sobrevivência, um número cada vez maior de empresas no mundo vem se convertendo à causa da sustentabilidade. O motor dessa tendência é aquilo que move o capitalismo desde sempre: dinheiro. Assumir uma postura não sustentável significa, hoje, deparar com as portas de vários bancos e instituições de fomento fechadas. Custa caro. A falta de monitoramento do impacto das companhias no meio ambiente e na comunidade é vista como uma bomba em potencial para seus negócios — e pode vir a comprometer o pagamento dos empréstimos no futuro. E bancos, assim como as instituições de fomento, detestam a idéia de não receber seus créditos ou os juros derivados deles. “Nos últimos anos aumentamos o peso dessas questões na avaliação de risco dos clientes”, afirma Maria Estela Ferraz de Campos, responsável pela área de projetos do banco Itaú BBA. “Algumas empresas ainda estranham as novidades, mas aos poucos começam a seguir as novas regras.”

A questão vem tomando proporções maiores à medida que crescem as pressões sociais — sobretudo as ligadas ao meio ambiente. Um caso exemplar de empresa brasileira que teve de lidar com a nova equação é o da Suzano Petroquímica. Em dezembro de 2005, a empresa conseguiu um empréstimo no valor de 200 milhões de dólares no International Finance Corporation (IFC), braço de financiamento a empresas privadas do Banco Mundial e a instituição pioneira na criação de regras socioambientais para avaliação de crédito em todo o mundo. O dinheiro seria usado na aquisição do controle integral da fabricante de resinas plásticas Polibrasil e também na expansão da produção das unidades que a Suzano mantém em Mauá, na Grande São Paulo, e em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. “Analisamos diversas opções, como a emissão de eurobônus”, diz José Alfredo de Freitas, diretor financeiro e administrativo da Suzano Petroquímica. “Nenhuma outra era tão boa quanto a do IFC.” Na opera ção, a Suzano conseguiu obter prazos longos — de até 12 anos — e com juros até 2,5 pontos percentuais mais baixos que os cobrados tradicionalmente.

PARA GARANTIR O DINHEIRO, porém, seus executivos tiveram de se comprometer a reduzir o impacto ambiental das operações industriais. “Já tínhamos práticas de controle bem rígidas para os padrões locais, mas os parâmetros do IFC são ainda mais altos”, afirma Antonio Mattos, diretor industrial da Suzano Petroquímica. Na unidade da empresa no pólo de Camaçari, na Bahia, por exemplo, foi instalada uma caldeira para queimar gases eliminados no processo produtivo e convertê-los em vapor. Até então esses gases eram lançados na atmosfera. Em Mauá, a companhia construiu uma estação de tratamento de efluentes para melhorar a qualidade da água devolvida ao rio. O IFC também condicionou o desembolso dos recursos a uma iniciativa sofisticada: o desenvolvimento de um projeto de reutilização de plástico com fabricantes da região. Para isso, a Suzano está desenvolvendo protótipos de produtos e terá de provar sua aceitação no mercado. Todos os ajustes exigidos pelo IFC foram concluídos no final do ano passado.

O movimento de adoção de práticas mais responsáveis na concessão de crédito no Brasil segue uma tendência global das instituições financeiras. Atualmente, 46 bancos de grande porte em todo o mundo — entre eles os brasileiros Bradesco, Itaú e Unibanco — são signatários dos Princípios do Equador, o conjunto de diretrizes socioambientais criadas pelos próprios bancos em 2003 e que devem ser seguidas no momento da concessão do crédito. Em julho de 2006, as regras foram revistas e ficaram mais rígidas (veja quadro). Um exemplo é a redução do valor mínimo para que o projeto de financiamento seja avaliado segundo esses princípios. A regra, que até meados do ano passado era aplicada para projetos de mais de 50 milhões de dólares, passou a valer para os acima de 10 milhões.

Outra novidade é que as empresas agora têm de estar preparadas não apenas para cumprir as exigências impostas pelos bancos como também para abrir suas portas para as auditorias externas — no caso dos projetos considerados de alto risco. “Essa é uma prática cada vez mais necessária”, diz Maria Estela, do Itaú BBA, que coordena a área de projetos e acompanhou 11 empréstimos de alto risco ambiental e social em 2006. O grupo Bertin, dono do segundo maior frigorífico do país e um dos maiores exportadores de carne do Brasil, vive atualmente sob esse escrutínio. Após dois anos de negociações com o IFC, o Bertin conseguiu um empréstimo de 90 milhões de dólares no início de março, mas terá de seguir diversas recomendações. Um dos pontos que mais preocupam o banco é a recente compra de um concorrente do Bertin em Marabá, no Pará, região em que conflitos ambientais e sociais brotam por todos os lados. O fato fez o nível de risco da empresa disparar. Uma das primeiras recomendações do IFC foi que o frigorífico promovesse reuniões com comunidades vizinhas, órgãos do governo e, sobretudo, dezenas de ONGs ambientalistas para prevenir indisposições que pudessem atrapalhar os negócios. Um grupo de auditores do IFC acompanhou cada uma das quatro audiências públicas. Nesses eventos, os executivos do grupo tiveram de explicar os projetos da empresa e ouvir críticas. A principal delas: para atingir seu objetivo de dobrar o rebanho da fazenda de 800 cabeças de gado para 1 600, a empresa aumentará as emissões de gases causadores do efeito estufa. “Nunca antes tivemos de nos submeter a algo parecido”, diz Douglas de Oliveira, diretor financeiro do Bertin. Por enquanto, o trabalho está apenas numa fase eliminatória, sem a qual o frigorífico estaria simplesmente desqualificado para o empréstimo. Em meados de abril, quando o contrato for finalmente assinado e os critérios financeiras definidos, o Bertin terá dois meses para avaliar as condições em que operam os 600 fornecedores de gado do frigorífico de Marabá. Nenhum desses pecuaristas poderá estar na lista negra de trabalho escravo, envolvido em grilagem de terra, violência agrária, desmatamentos recentes ou invasão de terras.

Alguns bancos, como o ABN Amro, presidido pelo executivo Fabio Barbosa, começaram a ajudar empresas a melhorar seus padrões de cuidados ambientais e sociais em vez de apenas puni-las ao negar crédito. O exemplo da Nutriz, uma pequena empresa gaúcha de alimentos e vegetais congelados, é revelador dos novos padrões. O ABN orientou a Nutriz, em 2005, a comprar equipamentos de tratamento de efluentes usando uma linha de crédito especial do banco. Desde então, com as melhorias ambientais, a nota de risco da Nutriz — ou rating, no jargão do mercado — melhorou, e o poder de barganha da empresa para negociar condições de financiamento também. Recentemente, por meio de uma linha de financiamento do BNDES, o ABN concedeu 1 milhão de reais para que a empresa comprasse uma câmara frigorífica com capacidade para armazenar 1 200 toneladas de alimentos. As condições: juros de 12% ao ano e 48 meses para pagar. “Não encontrei nenhuma opção melhor no mercado”, afirma Alceu Otávio de Góes, sócio da Nutriz. A sustentabilidade surge como tendência, mas a alma do capitalismo continua a mesma.

O caminho para o crédito verde

Cada vez mais as instituições financeiras levam em consideração aspectos ligados à sustentabilidade antes de liberar financiamentos para empresas. Veja as principais exigências feitas pelos maiores bancos privados do país e pelo IFC, braço financeiro do Banco Mundial
Provar que estão preparadas para minimizar o impacto social e ambiental do projeto (a construção de uma fábrica, por exemplo):
– Ter planos de ação para crises decorrentes de acidentes que envolvam o projeto e afetem a saúde e a segurança da comunidade, como incêndios e vazamentos de óleo
– Prevenir e minimizar a emissão de gases causadores do efeito estufa
– Provar que desde o início das negociações para obtenção dos recursos a empresa envolveu os stakeholders(públicos que serão diretamente ou indiretamente afetados) no projeto e estabeleceu canais formais de relacionamento com essas comunidades
Fontes: bancos e especialistas

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