Empresas de Energia provam que RSE pode, sim, dar lucro

O fim do “gato”

Revista Exame, edição 890, ano 41, n.6 | 05.04.2007

Empresas de energia provam que programas de responsabilidade social podem, sim, dar lucro

Por Chrystiane Silva
EXAME Nada preocupa mais as empresas distribuidoras de energia elétrica do que o furto causado pelas ligações clandestinas, os chamados gatos. Precárias, essas conexões improvisadas transformam a rede de distribuição em um emaranhado de fios que aumentam os riscos de acidentes, comprometem a qualidade da distribuição e, principalmente, provocam enormes prejuízos financeiros. Entre todas as tentativas para combater o problema, uma tem se mostrado bem-sucedida: os programas de responsabilidade social. Por meio de iniciativas como instalação de bibliotecas, centros de informática, realização de shows e cursos profissionalizantes, as distribuidoras de energia têm conseguido convencer a população de que vale a pena legalizar suas ligações elétricas e manter os pagamentos em dia. “Queremos incorporar a base da pirâmide no nosso negócio, mas não desejamos ter uma imagem de empresa oportunista”, diz Eduardo Bernini, presidente da AES Eletropaulo, uma das pioneiras nesse tipo de iniciativa. Por uma via quase alternativa, companhias como a AES comprovaram algo que os pregadores da responsabilidade social e da sustentabilidade nos negócios vêm tentando mostrar há muito tempo — é possível fazer uma relação direta entre projetos de interesse da sociedade e resultado financeiro.

Implementar um programa desse tipo exige um esforço considerável por parte das operadoras. De maneira geral, as populações de bairros pobres resistem com todas as forças à legalização e, claro, a todo tipo de aproximação com as empresas de distribuição de energia. O interesse maior é não pagar a conta. Diante disso, a AES Eletropaulo traçou uma estratégia de aproximação gradual com as comunidades. Durante os fins de semana, a companhia promove shows com artistas nas escolas dos bairros onde a situação é mais crítica. Nos intervalos das apresentações, os técnicos explicam as vantagens de ter uma ligação elétrica regular. “Explicamos que a conta de luz é um indicador de residência e o sinal verde para obter crediário nas grandes lojas”, diz Bernini. A empresa estima que existam 500 000 ligações irregulares em sua área de concessão e já conseguiu legalizar 129 000 delas, o que gerou economia de 150 milhões de reais em três anos. Eliminada a fase da clandestinidade, o desafio é manter a regularidade no pagamento das contas. Para isso, a AES Eletropaulo montou salas com computadores e internet grátis em regiões onde há grandes índices de inadimplência. O uso é livre desde que haja a apresentação da conta de luz devidamente paga. Há dois anos, a inadimplência média era de 45% nas regiões mais periféricas. O índice atual é de 6%.

Na Bahia, a distribuidora Coelba, do grupo Neoenergia, adotou um modelo sem as contrapartidas da AES. Sua estratégia passa por iniciativas que ofereçam perspectivas de aumento de renda das famílias. A empresa fez seu primeiro programa desse tipo no Bairro da Paz, favela em Salvador com 49 000 habitantes. Lá a inadimplência chegava a 65% e hoje beira os 30%. A Coelba criou cooperativas para a promoção de cursos de informática e culinária para qualificação profissional dos moradores. As iniciativas aumentaram o número de regularizações das ligações clandestinas de 50 para 1 400 por mês. A empresa também criou uma versão do programa que será aplicada em duas regiões pobres do interior baiano. Na primeira delas, na cidade de Jeremoabo, próxima de Feira de Santana, doará máquinas e equipamentos de tecelagem a uma cooperativa rural. Na segunda, na cidade de Wenceslau Guimarães, na região de Ilhéus, ajudará na instalação de uma unidade de processamento de frutas. O raciocínio por trás dessas iniciativas: se essas comunidades não tiverem condições de se sustentar nos próximos anos, não terão como pagar suas contas de luz.

O empenho das distribuidoras de energia em desenvolver ações de responsabilidade social deve-se a uma determinação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A agência obriga as companhias distribuidoras a aplicar 0,5% de sua receita operacional líquida em ações para combater o desperdício de energia e aumentar a eficiência energética. Daí a ligação entre programas educativos e atividades de inclusão social e a legalização das ligações clandestinas. Até poucos anos atrás, o combate aos gatos era simplesmente uma questão de polícia, uma vez que furto de energia é considerado crime. “Hoje a situação é diferente. Queremos manter a confiança das comunidades”, diz Márcia Coutinho, responsável pelo atendimento às comunidades da Light. A empresa atende uma população de 3,8 milhões de clientes no Rio de Janeiro e estima que pelo menos 180 000 deles sejam irregulares. Numa tentativa de resolver o problema, a Light contrata moradores das favelas para trabalhar como agentes comunitários, cuja principal função é verificar fiações em más condições. Eles também devem orientar os vizinhos sobre redução do consumo de energia e estimular a troca de lâmpadas, o que já trouxe redução de 20% no consumo de energia. Pode parecer um paradoxo que companhias como a Light incentivem justamente a economia de energia. É apenas pragmatismo. As contas de luz só são pagas se sobra dinheiro no final do mês, um feito raro para a maioria dessas famílias. Quando a fatura não é paga, a energia é cortada e o consumidor invariavelmente opta por uma ligação irregular. A Light calcula que suas iniciativas nas favelas cariocas estancarão perdas equivalentes a 5,5 milhões de reais por ano em fraudes e furto de energia.

Adeus à clandestinidade
Como as empresas de energia elétrica conseguiram reduzir ligações irregulares e desperdícios com projetos sociais
AES Eletropaulo – Promoção de shows nas comunidades e internet grátis, desde que a conta de luz esteja paga – A empresa economizou 150 milhões de reais em três anos
Light – Agentes comunitários, a serviço da companhia, trocam lâmpadas e refazem fiações – Foram evitadas perdas de 5,5 milhões de reais anuais
Coelba – Promove cursos de informática e culinária e dá informações sobre como economizar energia – A inadimplência caiu de 65% para 30%
Fonte: empresas

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