Eloi Zanetti comentando a mineirada

Alguém pede licença para entrar numa conversa? 

Minha profissão me obriga a percorrer quase todas as regiões do país. Conheço centenas de cidades e lugares do interior e, a cada viagem, volto mais apaixonado pelo nosso povo e a maneira cordial como trata os seus assuntos cotidianos. Temos muitos defeitos, é claro, mas nossas virtudes são bem maiores. A imensa cordialidade do nosso povo fica ofuscada pelo excessivo volume das más notícias que nos chegam pela imprensa a cada dia.

 É encantador perceber os diferentes modos de expressão de cada uma das nossas regiões: temos falas rápidas e concisas, arrastadas e preguiçosas, orgulhosas e cheias de vanglórias, desleixadas e carregadas de malícia, e temos o gostoso e manso falar do povo mineiro – um falar que acaricia os ouvidos. 

Percebi isto quando estava
em Belo Horizonte a trabalho e, em hora de folga, assistindo TV no hotel, vi uma reportagem que contava a história de um menino que havia encontrado no pasto da fazenda onde morava um meteorito. A equipe da reportagem local e entrevistou diversas pessoas, o garoto, o professor de geografia do colégio, um geólogo e como sempre alguns populares.

   Foi um cidadão comum, um carroceiro, quem me deu a pista do porque gosto tanto da maneira de falar dos mineiros. Ele disse: “- … coitadinho do menino, se ele tivesse achado uma pedra de ouro a sua vida seria outra, mas como não foi ouro….” Foi esee “coitadinho”, este interessar-se com a condição do outro que me pegou.  

O mineiro tem na sua fala uma certa bondade, uma certa preocupação com o próximo que me chama atenção. Há, na fala do povo mineiro, educação, pureza de palavras e sentimentos, respeito pela privacidade do outro, uma cidadania nata. O mineiro fala na rua como se estivesse falando na intimidade da sua família.

  Você não encontra facilmente em outras regiões este jeito maneiroso de falar, um respeito ao trato humano e que leva uma consideração profunda pelo interlocutor. Num texto de Guimarães Rosa, um caboclo chega para o outro e pergunta: -“Vôsmece me dá licença de entrar na conversa?” – Ora, quem neste país pede licença, de forma respeitosa, para entrar em alguma conversa? Só um mineiro pede. Ele sabe que o falar entre as pessoas é uma coisa sagrada e tem que ser tratada com respeito. E, em conseqüência os mineiros levam esta maneira de tratar palavras e conversas para as suas manifestações de arte. A escrita de Adélia Prado e Carlos Drummond de Andrade, o bem elaborado trabalho do Grupo Galpão, a narrativa dos seus inúmeros contistas e as letras e as músicas harmoniosas dos seus compositores. Eles estão sempre falando de gente, como gente, e com muito respeito e sentimento. 

O mineiro quando é apresentado conversa como se lhe conhecesse de longa data. Logo, puxa prosa e, à sua doce maneira nos coloca à vontade, fazendo com que a conversa flua fácil e gostosa. Mas ao mesmo tempo, cuidado, ele vai espertamente sondando, aos poucos, para saber com quem está lidando e como poderá se conduzir no proseado e nos assuntos dali para frente. Foi com os politicos mineiros que eu aprendi, para se fazer uma reunião, primeiro a gente decide, depois faz a reunião.

  Eu, que já invejava o povo mineiro pela preocupação que tem com as suas raízes, cultura, identidade e religiosidade, fiquei mais apaixonado ainda quando descobri na fala do carroceiro o suave mistério no trato das suas conversas de dia-a-dia. 

Eloi Zanetti – publicitário, escritor, assessor de comunicação e marketing

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